EP#53: Rage Bait
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Sobre este título
Você já sentiu aquele calor subindo pelo pescoço ao ler uma manchete absurda no seu celular? Aquele momento de fúria imediata em que o dedo clica em compartilhar um vídeo antes mesmo que o cérebro tenha tempo de processar a informação? Pois saiba que essa reação fisiológica não é um acaso e muito menos um defeito do sistema. Ela é o produto, uma estratégia. Estamos falando de um fenômeno que deixou de ser apenas uma tática de internet para se tornar o modus operandi da nossa era. O dicionário Oxford acaba de eleger “Rage Bait” como a palavra do ano. A tradução literal seria “isca de raiva”, mas no contexto brasileiro podemos chamar de “gatilho do ódio”.
O conceito é simples e perverso. Trata-se de um conteúdo arquitetado milimetricamente para provocar indignação. A lógica por trás disso é puramente econômica. As plataformas digitais operam em uma economia da atenção onde o tempo de tela é a moeda mais valiosa. E os algoritmos aprenderam uma lição perigosa sobre a psicologia humana. A raiva retem a atenção muito mais do que a alegria ou a serenidade. O ódio gera mais engajamento do que a empatia. Assim, quem produz conteúdos com essas gramáticas, engaja mais.
Quando transpomos isso para o debate público e para a política o cenário se torna crítico. O rage bait funciona como o combustível aditivado da desinformação. A arquitetura das redes privilegia o extremo porque o extremo gera cliques. O conteúdo moderado e factual é ignorado pelo algoritmo porque ele não sequestra a amígdala do usuário. Ele não gera a urgência do comentário furioso.
O resultado é um ecossistema viciado. Criadores de conteúdo e estrategistas políticos descobriram que para furar a bolha eles não precisam estar certos. Eles precisam ser irritantes. Eles precisam ofender. A desinformação aqui não é apenas um erro de apuração. É uma estratégia de negócios. Nós estamos diante de uma maquinaria onde a nossa indignação é a matéria-prima e a polarização social é o produto final. Entender o rage bait é essencial para compreender por que a internet parece um campo de batalha perpétuo e quais são os desafios regulatórios para conter um modelo de negócio que lucra com a destruição do diálogo.
Essa engrenagem levanta barreiras complexas para o mundo jurídico e nos força a questionar os limites da regulação econômica. Como o Direito deve reagir a um modelo de negócios socialmente corrosivo? O sistema judiciário tradicional sabe lidar com os efeitos dos discursos de ódio explícitos? O rage bait navega em uma zona cinzenta ardilosa. Ele muitas vezes não viola a lei. Ele apenas explora vulnerabilidades cognitivas em troca de capital político e midiático.
O impacto democrático é ainda mais profundo e nos obriga a revisitar a própria função da liberdade de expressão. Esse tipo de discurso está abarcado no exercício da liberdade de expressão? Estamos diante do desafio monumental de proteger o discurso livre sem permitir que o debate público seja sequestrado por uma arquitetura que transforma a política em um espetáculo de indignação lucrativa. Vamos debater essas e outras perguntas no episódio de hoje. Vem com a gente!